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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Moralidade da Poligamia

Há uns anos atrás estava eu no Centro de História da Família no Porto e apareceu uma senhora com o intuito de fazer a sua genealogia. Depois de eu lhe dar algumas dicas, a referida senhora continuou a falar comigo sobre a Igreja. Durante a nossa conversação, ela confessou-me que tinha uma percepção errada sobre os Mórmons, pensava ela que os mórmons eram uns devassos e promíscuos por terem muitas mulheres.

Eu por fim expliquei-lhe que a Igreja no passado teve uma prática de casamento plural e que não era uma libertinagem. O casamento plural era um homem casar com mais do que uma mulher, mas também teria que manter-se fiel a essas esposas. Portanto se um homem fosse infiel às suas esposas também estaria a cometer adultério. Também lhe expliquei que essa prática não existe na Igreja há mais de um século, e citei-lhe o meu caso pessoal que tinha um casamento monogâmico (e feliz!), tal como todos os actuais membros casados da Igreja.

Parece ser comum entre as pessoas que culturalmente vivam dentro de uma sociedade monogâmica considerarem a poligamia como uma grande promiscuidade. Isto é, como se fosse uma forma legal de cometer adultério e ser infiel ao cônjuge às claras.

Quem pensa assim está muito equivocado!

A Bíblia relata-nos imensas histórias de homens, considerados fiéis a Deus, mas que tinham mais de uma esposa, como por exemplo Abrãao, Isaque, Jacó e outros.

A poligamia, mais propriamente a poliginia (homem casado com mais do que uma esposa) também era regulamentada pela lei Mosaica (Exodo 21:10, Deut. 21:15-17, e Deut. 17:17) e a prática do levirato (Deut, 25:5-6) que obrigava o irmão de alguém falecido a casar com a viúva, é referida imensas vezes, tratando – se de uma prática muito comum entre o povo Judeu durante imensos séculos.

Parece-me muito estranho que uma prática pretensiosamente imoral seja tão divulgada na bíblia e tenha sido regulamentada por uma lei que à partida foi dada por Deus a Moisés!

Cristãos fundamentalistas costumam confirmar a existência da Poligamia no Velho Testamento, mas que esta terá sido abolida por Cristo nos seus ensinamentos sobre o Casamento. É costume utIlizarem as citações do Salvador em Mateus 19:9:

Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério

Esses fundamentalistas argumentam que a referida escritura é bastante clara a considerar pecaminoso o casamento com outra mulher. Porém se analisarem o capítulo desde o início pode se verificar que essa é uma interpretação muito restrita das palavras do Salvador.

Primeiro, o Salvador não está falar sobre a situação de um homem casar-se com mais do que uma mulher, mas sim sobre o divórcio. Os assuntos podem ser relacionados, mas por senso comum, é clara a distinção dos dois tópicos. Portanto o Salvador o que está a dizer é que é adultério um homem que se divorcia para casar com outra. Portanto primeiro tem que haver divórcio seguido de casamento para se concretizar o pecado. Homem que se casa com outra esposa, sem se divorciar da primeira, a escritura é simplesmente omissa sobre esse assunto.

Depois o Salvador faz uma distinção entre o conceito de casamento instituído no início e o da lei de Moisés no vers 8:

Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.”

Portanto a lei de Moisés permitia o divórcio por causa da dureza dos corações dos homens, mas verdadeira lei do casamento é a que foi instituída no início. Portanto ele claramente rejeita as leis matrimoniais reguladas na lei mosaica, mas aceita as que foram instituídas no início, portanto como a Poligamia já existia antes de Moisés então a Poligamia não foi abolida pelo Salvador.

Parece-me também interessante e de certa forma confirma o raciocínio anterior, que o apóstolo Paulo associe o patriarca Abraão com o evangelho quando diz:

Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.

Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti
” (Gálatas 3:7-8).

Diz aqui o apóstolo que Abrãao, um grande praticante do casamento plural, é dado como exemplo de vivência do evangelho. Ora se Abraão viveu o evangelho, então a poligamia é compatível com o evangelho.

Parece-me então abusador e despropositado acusar os membros da nossa igreja que durante o Sec. XIX foram praticantes do Casamento Plural então também teremos de considerar imorais muitas personagens bíblicas.